Como pode?

25/12/2012 09:31

 

Cristãos festejam o nascimento de Jesus sem se comportarem como bons

samaritanos.

 

 

 

Dezembro, mês em que a civilização cristã comemora o nascimento de Jesus, não cumprindo a regra de ouro ou adotando o comportamento do Bom Samaritano, que seria o certo, mas demonstrando que possui mais poder e dinheiro do que seu semelhante, uma vez que este mês  mais parece dedicado a Mamon do que àquele que ficou conhecido como o Bom Pastor, o Mestre do “jugo suave” e do “fardo leve”. 

Como pode uma sociedade de economia de fartura, extremamente egoísta, exclusivista e encastelada, se preparar para venerar o nascimento de um menino que pertencia a uma sociedade de economia de miséria e que, quando atingiu idade adulta, por livre e espontânea vontade, decidiu seguir o caminho de quem era considerado, pelo status quo, malfeitor e se fazia acompanhar de pobres, doentes, rebeldes, miseráveis, privilegiava os marginalizados, sequer tinha um local para descansar sua cabeça e pregava a socialização da riqueza? 

Que grande hipocrisia! 

É possível uma sociedade amiga dos sinedricistas, herodianos, escribas, palacianos, fariseus, Judas e, por origem e índole, legítimos retratos de sepulcros caiados, homenagear e se prostrar diante de quem nasceu numa gruta e foi protegido do frio pelo calor oriundo de animais, como o boi e o asno, e pelos trapos que seu pai adotivo e sua pobre mãe possuíam sobre o corpo? 

Improvável, para não dizer impossível!

Sinedricistas rangem os dentes e rasgam as vestes quando se fala no Deus humanado. Herodianos, por medo, frustração ou inveja, sempre cometem infanticídio. Palacianos, se “vestem de seda” e nunca abandonam uma taça de vinho. Escribas escrevem, propositadamente, o que não devem, escondendo, assim, a ilegalidade e criminalizando a legalidade. Fariseus acham que o que contamina o homem é o que entra pela boca, quando o Mestre ensinou que é o que sai. Os partidários de Judas são como vírus que infectam o que quer que seja e depois demonstram sua lealdade selando nosso destino com um beijo, e, finalmente, sepulcros caiados nunca abrem o paletó ou a camisa, pois, se assim o fizessem, todos veriam a podridão que escondem e, com certeza, os apedrejariam.

Que situação, a destes tipinhos!

O correto seria que eles tivessem alguma dificuldade para se movimentar no espaço e no tempo, mas o interessante é que, apesar destas virtudes, passeiam pelos nossos bosques, sentam nos bancos de nossas praças, são tratados com admiração e respeito e ainda condecorados.

Ora, se o Natal exige uma mudança de atitude, de que, na realidade, precisa esse homem? Da energia que emana da Criança da manjedoura ou do inevitável cadafalso? 

*Aloisio Vilela de Vasconcelos é professor da Universidade Federal de Alagoas.